20.8.09

21 de Agosto - S. Pio X

SÃO PIO X
(Giuseppe Melchiorre Sarto)


São Pio PP X, (Giuseppe Melchiorre Sarto), nascido em Veneza em 1835.
''Passados 11 dias do sufrágio da alma do Papa Leão XIII, recém-falecido, os Cardeais da Santa Igreja (em número de 62, na época) iniciaram o Conclave - reunião do Colégio Cardinalício com o objetivo de eleger o novo Papa''

''No sétimo turno da votação, o Cardeal Sarto, por insistência de vários de seus pares no Sacro Colégio, acabou aceitando (é bom recordar o papel fundamental representado pelo então Monsenhor Merry del Val (mais tarde Cardeal) para convencer o Cardeal Sarto a aceitar o resultado da eleição) e foi eleito o 259º sucessor de São Pedro, por 50 votos a seu favor, no dia 4 de Agosto de 1903.
O Cardeal Sarto, de cabeça baixa, ouviu o resultado do sufrágio. Segundo o costume, aproximou-se dele o Cardeal Decano e perguntou-lhe se aceitaria ou não a eleição à Sede Pontifícia. Com os olhos banhados em lágrimas, e a exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, respondeu: “Se não for possível afastar de mim esse cálice, que se faça a vontade de Deus. Aceito o Pontificado como uma cruz”.


Após cinco dias, teve lugar a grandiosa cerimónia de coroação do sucessor de São Pedro, para a glória da Santa Igreja. O glorioso, árduo e fecundo Pontificado deste Vigário de Cristo durou 11 anos. Nesse período, foram lançados mais de 3000 documentos oficiais, com o objectivo de Instaurare omnia in Christo - conforme seu lema.
E tem estreita analogia com esta sua afirmação: “Se alguém pedir uma palavra de ordem, sempre daremos esta e não outra: Restaurar todas as coisas em Cristo”.
Nesse sentido de restaurar todas as coisas em Cristo, foram numerosas e admiráveis as obras empreendidas pelo Santo Pontífice para defender a Civilização Cristã gravemente ameaçada. Em seu esplêndido livro de memórias, o Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, enumera de passagem algumas dessas obras:
A reforma da Cúria Romana; a fundação do Instituto Bíblico;
A construção de seminários centrais e a promulgação de leis para a melhor disciplina do clero;
A nova disciplina referente à primeira comunhão e à comunhão frequente;
O restabelecimento da música sacra; a vigorosa resistência movida contra os fatais erros do chamado modernismo e a corajosa defesa da liberdade da Igreja na França, Alemanha, Portugal, Rússia e outros países, sem aludir a outros actos de governo, justificam certamente que Pio X tenha sido destacado como um grande Pontífice e um director humano excepcional. Posso testemunhar que todo esse enorme trabalho foi devido principalmente e - muitas vezes - exclusivamente à sua própria ideia e iniciativa.


A História haverá de proclamá-lo como algo mais que um Papa cuja bondade ninguém seria capaz de discutir. Os limites que me impus ao traçar estas breves Memórias impedem-me de entrar a fundo no estudo das diversas e importantes questões a que mais acima me referi; mas há uma delas cuja importância creio merecer especial atenção neste curto relato, e esta é a compilação do novo Código de Direito Canónico”.
O Cardeal, fidelíssimo Secretário de Estado de São Pio X, passa a narrar o intenso trabalho do Santo Padre para reorganizar e aprimorar o novo Código, uma vez que o anterior era um emaranhando confuso, uma legislação que se prestava a diversas interpretações.


Foram 11 anos de trabalho quase ininterrupto, mas ao cabo dos quais a admirável codificação ficou praticamente pronta nos últimos dias de São Pio X, em 1914. Seu sucessor, o Papa Bento XV, rendeu-lhe uma merecida homenagem, promulgando o novo Código elaborado por seu augusto predecessor. Uma palavra a respeito de uma característica em que se destacou no mais alto grau São Pio X: sua extrema bondade, ao lado de uma indomável energia.
Sobre isso, nada melhor que darmos a palavra a quem o conheceu mais de perto, e devotadamente o serviu por 11 anos - seu próprio Secretário de Estado, o Cardeal Merry del Val: “Seria um grande erro crer que esta característica (a bondade) tão atraente de Pio X o retratasse plenamente ou resumisse seus dotes e qualidades; nada mais longe da verdade.
Ao lado dessa bondade, e de modo feliz combinada com a ternura de seu coração paternal, possuía uma indomável energia de carácter e uma força de vontade que podiam testemunhar, sem vacilação, os que realmente o conheceram, embora em mais de uma ocasião surpreendesse, e até causasse estranheza àqueles que somente haviam tido ocasião de experimentar sua delicadeza e reserva habituais.
Mantinha um absoluto senhorio de si e dominava os impulsos de seu ardente temperamento. Não vacilava em ceder em assuntos que não considerava essenciais, e até estava disposto a considerar e aceitar a opinião de outros se isso não implicasse em risco para algum princípio; mas não havia nele nenhuma debilidade.
Quando surgia alguma questão na qual se fazia necessário definir e manter os direitos e liberdade da Igreja, quando a pureza e integridade da verdade católica requeriam afirmação e defesa, ou era preciso sustentar a disciplina eclesiástica contra o relaxamento ou influência mundanas, Pio X revelava então toda a força e energia de seu carácter e o intrépido valor de um grande Pontífice consciente da responsabilidade de seu sagrado ministério e dos deveres que julgava ter que cumprir a todo custo.
Era inútil, em tais ocasiões, que alguém tratasse de dobrar sua constância; toda tentativa de intimidá-lo com ameaças, ou de afagá-lo com sedutores pretextos ou recursos meramente sentimentais, estava condenada ao fracasso”. Este santo varão, que derramava copiosas lágrimas considerando a paixão da Santa Igreja, era entretanto de uma severidade ímpar contra o mal. Depois de esgotar todos os recursos ao seu alcance para levar alguém à conversão, severamente condenava. Estava sempre disposto a perdoar, por assim dizer, maternalmente.
Mas se a pessoa persistisse no erro e, pior, procurasse contaminar outros com seus desvios, o Santo Papa a reprovava energicamente. Foi o que ocorreu quando condenou o movimento modernista - “síntese de todas as heresias”, conforme o definiu -, que se infiltrara sub-repticiamente nas próprias fileiras católicas, com a finalidade de modernizar, adaptar e deturpar inteiramente o ensinamento tradicional da Igreja. Assim, o Santo Padre lançou várias advertências aos mentores desse movimento, os quais não as levaram em consideração, pois se obstinavam no mal e procuravam corromper outros membros da Igreja e até mesmo da alta Hierarquia Eclesiástica.
Publicou então a sua estupenda Encíclica «Pascendi Dominici Gregis», de 08 de Setembro de 1907, fulminando o modernismo. Tal documento completava a condenação já expressa no Decreto «Lamentabili Sane Exitu», de 03 de Julho do mesmo ano. Como se pôde observar, vem de há muito a tentativa de infiltração no interior da Santa Igreja, por parte de inimigos velados ou declarados, a fim de “modernizar”, adaptar aos novos tempos e adulterar o Magistério tradicional e infalível da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. A sua canonização foi feita pois atribui-se à Pio X, ainda em vida, vários milagres.
Relatam que pessoas doentes que tinham contacto com ele curavam-se, e sobre este facto ele mesmo explicava como sendo "o poder das chaves de São Pedro". Um dos casos mais formidáveis ocorreu durante uma Missa, quando ordenou a um Padre que apagasse uma determinada vela do Altar. Ao final, Pio X pegou essa vela e retirou de dentro uma bomba que fora ali colocada para estourar durante a Missa. Fala-se também que após sua morte que ocorreu em 20 de Agosto de 1914, ainda era visto, frequentemente, dentro do Vaticano. Em Maio de 1954 foi canonizado.


Autor : Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
Arcebispo Primaz Katholikos / (Mar Alexander I da Hispânea)

15.8.09

14 de Agosto - São Maximiliano Kolbe - Martir Sacerdote


Raymond Kolbe, filho de Júlio Kolbe e Maria Dabrowska, nasceu aos 8 de janeiro de 1894, em Zdunska Wola, perto de Lódz, na Polônia. Por volta dos nove anos, ajoelhado diante do oratório, apareceu-lhe a Virgem Maria, segurando uma flor branca – representando a virgindade – e uma vermelha – simbolizando o martírio – e perguntou-lhe qual preferia; ele, angustiado pela difícil escolha, respondeu: “As duas”.

Aos 13 anos, entrou no seminário dos Frades Menores Conventuais, onde recebeu o nome de Maximiliano Maria. Enviado a Roma para obter doutorado em filosofia e teologia, em 1917, movido por um incondicional amor a Maria, fundou o movimento de apostolado mariano “Milícia da Imaculada”. No ano seguinte, 1918, foi designado para lecionar no Seminário Franciscano, em Cracóvia. Mas o amor por Maria e seu apostolado Mariano, começou a evangelizar através da imprensa escrita e através de rádio também. Em 1922, sem recursos financeiros, fundou uma revista mensal intitulada “Cavaleiro da Imaculada”, chegando a incrível marca de 1.000.000 de exemplares. Seguiu-se com outras publicações como revistas para crianças ou para os fiéis latino-americanos. Verdadeiramente o carisma presente em São Maximiliano era o da imprensa.

Em 1931 aceitou a tarefa proposta pelo Santo Padre de ajudar na evangelização ao redor do mundo e foi para o Japão. Em Nagasaki fundou a revista “Cavaleiro da Imaculada” que se tornou famosa no meio católico. O sonho de São Maximiliano era de espalhar pelo mundo a devoção à Imaculada. No entanto teve de retornar à Polônia no início da Segunda Guerra Mundial.

Em setembro de 1939, Frei Maximiliano e cerca de 40 outros frades foram levados para os campos de concentração. Na celebração da Imaculada Conceição do mesmo ano foram libertos. Mas os nazistas tinham uma preferência maior por judeus e padres.

A Gestapo permitiu uma impressão final do “Cavaleiro da Imaculada”, em dezembro de 1940, para poder incriminá-lo. Em Maio de 1941, foi levado ao campo de extermínio de Auschwitz. Nestes campos, milhares de pessoas foram exterminados.

Quando o chefe militar viu Frei Maximiliano vestido de hábito religioso, ficou furioso. Agarrou o crucifixo do frade e, puxando-o, gritou: “E tu acreditas nisso?” “Creio, sim!” Uma tremenda bofetada seguiu a resposta de Frei Kolbe. Três vezes repetiu-se a pergunta. Três vezes Maximiliano confessou sua fé. Três vezes levou bofetada. Frei Maximiliano demonstrava profunda devoção à Imaculada e em contra ponto aos horrores dos nazistas ele perdoava e aconselhava os prisioneiros a confiar em Maria Santíssima e orar pelos assassinos. Os judeus tinham o direito de viver duas semanas e os padres um mês. Frei Maximiliano era conhecido pela caridade mesmo nos momentos mais difíceis. Dava seu alimento a quem precisava e era o último a ser atendido pela enfermaria, mesmo tendo tuberculose. Dizia: “O ódio não é a força criativa; a força criativa é o amor”.

Um prisioneiro escapou com sucesso da mesma seção onde Frei Maximiliano estava detido. Em represália, o comandante ordenou a morte por inanição de 10 prisioneiros, escolhidos aleatoriamente. O sargento Franciszek Gajowniczek, que fora escolhido para morrer, gritou lamentando que nunca mais veria a esposa e os filhos. Então, saiu da fila o prisioneiro nº 16670, pedindo ao comandante o favor de poder substituir aquele pai de família. O comandante perguntou, aos berros, quem era aquele “louco”, e, ao ouvir ser um padre católico, aceitou o pedido.

Os 10 prisioneiros, despidos, foram empurrados numa pequena, úmida e totalmente escura cela dos subterrâneos, para morrer de fome. Durante 10 dias Frei Maximiliano conduziu os outros prisioneiros com cânticos e orações, e os consolou um a um na hora da morte. Após esses dias, como ainda estava vivo, recebeu uma injeção letal. Era o dia 14 de agosto de 1941.

O corpo de Maximiliano Kolbe foi cremado e suas cinzas atiradas ao vento. Numa carta, quase prevendo seu fim, escrevera: “Quero ser reduzido a pó pela Imaculada e espalhado pelo vento do mundo”.

Ao final da Guerra, começou um movimento pela beatificação do Frei Maximiliano Maria Kolbe, que ocorreu em 17 de outubro de 1971, pelo Papa Paulo VI. Em 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, que sobreviveu aos horrores do campo de concentração, São Maximiliano foi canonizado pelo Papa João Paulo II, como mártir da caridade. Por seu intenso apostolado, é considerado o patrono da imprensa.


“Toda a vida de Maximiliano está marcada pelo encanto de duas coroas: a coroa branca da inocência e a coroa vermelha do martírio. O branco e o vermelho, cores da bandeira polonesa, símbolos da Imaculada e do Espírito Santo, da pureza e do amor, são as cores desta vida exemplar, a bandeira de uma humanidade mais autêntica e mais fraterna”

[Luciano Marini,"L'Osservatore Romano"

Mártir de Auschwitz

“Para Padre Kolbe o amor estava em tudo e em todos, ele sempre dizia perdoar, perdoar, perdoar"

O bloco 14 era dividido em duas partes, térreo e superior, éramos em 400 prisioneiros. A situação higiênica é indescritível, um banheiro para 400 prisioneiros.


Padre Kolbe esteve no campo 77 dias, chegou dia 28 de maio 1941, era tranqüilo, um homem onde resplendia a bondade, um verdadeiro amigo. Aqueles que o conheciam sempre o ajudavam devido a sua fragilidade. Eu nunca me aproximava dele, ele sempre falava com os outros padres, a respeito da Imaculada e da Santíssima Trindade, somente os mais velhos o escutavam. A coisa mais interessante era perceber o quanto era bom.

- 29/07/1941, mais ou menos 13:00h, momento pausa no trabalho e a sirene soou, deu medo, o som não era o mesmo, naquele dia entendíamos que era algo de ruim, e todos deveriam deixar o trabalho e ir para o pátio, é o momento do apelo, ou seja, o controle de prisioneiros de cada bloco. Alguns não suportavam o trabalho e morriam, mas vivo ou morto tinha que estar no momento do apelo, não podia faltar nenhum prisioneiro. Deus me permitiu estar em tantos apelos não sei como consegui. Naquele dia era apelo punitivo, somente para o nosso bloco, e nenhum outro bloco, podia nem mesmo ver pela janela se não também eram punidos.


Depoimento deMiguel Micherdzirski ex-prisioneiro Número 1.261



Esteve 04 anos no campo de concentração de Auschwitz. Foi transportado para o campo no dia 26.06.1940 com 19 anos. Deu seu testemunho no dia 08.01.2004, na Polônia em ocasião dos 110 anos do nascimento de São Maximiliano Kolbe.


- 30.07.1941 as 19:15h, foi o momento que Padre Kolbe saiu da fila, do dia 29/07 ao 30/07 ficamos no pátio em pé sem comer, sem dormir, a noite era muito fria, e durante o dia muito calor. Os soldados colocavam a comida na nossa frente, e jogavam no chão, muitos não agüentavam, não tendo mais força e acabavam morrendo. Eu, Padre Kolbe e Francisco estávamos na mesma fila, na 5º ou 6° fila. Fritz andava entre as filas, e quando parava na frente de um prisioneiro significava que era seu fim, era condenado, quando Fritz se aproximou de mim, me sumiu a visão, tremia minhas pernas, meu único desejo era de viver, minha oração era “Deus não deixe ele tocar em mim”. Naquele momento não podíamos ter nenhum tipo de reação, não podia manifestar nem mesmo uma expressão, porque seria o suficiente para morrer. Quando tudo acabou foi um alivio, mas de repente se percebe que alguém sai do lugar, naquele momento o silêncio reinava, só se ouvia os passos daquele homem, Padre Kolbe. Ele calmamente se aproximou de Fritz e disse: “Quero morrer no lugar desse homem”. Em um lugar onde milhões morriam, morrer por um não significava nada.

Fritz perguntou: “Quem é o senhor?”.Calmamente Padre Kolbe responde: “Sou um Polaco sacerdote católico”. Sete milhões de prisioneiros passaram por lá, essa foi a primeira vez que Fritz chamava um prisioneiro de senhor, éramos sempre chamados de porcos, besta e outros nomes terríveis. Padre Kolbe disse simplesmente: “Porque ele tem mulher e filhos” ela salvava o valor do sacramento matrimonial e a paternidade.

O que mais impressionou, não foi o fato que ele morria por alguém, isso era normal em um lugar como aquele, mas naquele dia os Tedescos perderam a guerra, era inacreditável Fritz falar com um prisioneiro, e ter aceitado a troca, ele podia simplesmente atirar em Padre Kolbe e nos outros, ou então soltar os cachorros neles. No campo de concentração era inaceitável gesto de martírio, os Tedescos não admitiam, os prisioneiros só podiam morrer, por suas mãos. Padre kolbe morreu para salvar um único prisioneiro, mas naquele dia ele trouxe a Auchwitz a esperança e o amor.

Foram 386 horas de sofrimento, e de fome. A Imaculada fez com Padre Kolbe tudo aquilo que desejava, fez dele um grande dom. Humanamente era difícil entender aquele ato, aquele momento marcou a história de Auschwtiz, a história de cada prisioneiro, ele trouxe a cada um de nós a dignidade e a vontade de viver. "

"Padre Kolbe e os outros nove prisioneiros foram levados para o bloco 11, no Bunker da fome. Passaram-se duas semanas e os prisioneiros morriam um após o outro, mas no fim da terceira semana, ainda sobreviviam quatro, entre eles Padre Kolbe.

Para os carrascos, a morte deles estava sendo longa porque a cela (Bunker) era necessária para outras vítimas. Por isso, no dia 14 de agosto de 1941, (as 12h50, da Vigília da Assunção de Maria Virgem ao céu), foi conduzido ao Bunker, o carrasco Boch, um Tedesco, diretor da sala dos enfermos. Ele aplica no braço esquerdo de cada um, a injeção venenosa de acido fenico. Padre Kolbe com a oração entre os lábios estende o braço ao carrasco.

Não podendo resistir aquilo que meus olhos viam, com o pretexto de ter que ir trabalhar, fui para fora. Quando os guardas e o carrasco deixaram o Bunker, eu retornei: Encontrei Padre Maximiliano Kolbe, sentado e apoiado no muro, com os olhos abertos e a cabeça inclinada: era a sua posição habitual. A sua face era radiante e serena.


Jesus disse: “tudo está cumprido”. Inclinando a cabeça, entrega o espírito. Talvez também Padre Kolbe tenha pronunciado essas palavras, antes de inclinar a cabeça e suspirar. No dia da Assunção da Virgem Maria ao Céu, no dia 15 de agosto, o seu corpo foi queimado no forno crematório e suas cinzas foram jogadas ao vento. Em 28 de janeiro de 1942, o certificado de morte de Padre Kolbe foi levado pelo oficial central do campo de concentração ao convento de Niepokalanòw."


(Testemunho de Sig. Borgowiec - Fonte site MI Internacional.)



pensamentos de são maximiliano kolbe

"O homem não foi criado para as riquezas, pois tanto mais possui, tanto mais deseja e tanto mais é infeliz."

"O homem não foi criado para os prazeres, pois quanto mais possui, tanto mais deseja e tanto mais é infeliz."

"O homem não foi criado para a glória, pois quanto mais possui, tanto mais deseja e tanto mais é infeliz; nem para a ciência, pois tudo isso são meios. O que você ganha se perde a alma?"

"Você foi criado para Deus e para o Paraíso.

O fim do homem é a glória de Deus.

O fim do religioso é um a maior glória de Deus.

A recompensa do homem é o Paraíso.

A recompensa do religioso é uma maior felicidade no Paraíso.

O que fazer para alcançar o fim?

- intelecto: conhecer Deus através :

1. da meditação feita bem (Palavra de Deus)

2. boas leituras

3. sobre tudo através da santa comunhão feita bem, metade da jornada de preparação e a outra metade de agradecimento.

4. visita ao Santíssimo Sacramento: confidencie tudo ao Senhor, agradeça-O, reze a Ele .


29.7.09

São José Maria Escrivá - Modelo de Vida Sacerdotal


Identidade do sacerdote

Começarei a minha intervenção com umas palavras que S. Josemaria costumava dirigir aos recém ordenados, mas que nos servem também – e talvez mais especialmente – a nós que contamos muitos anos de sacerdócio. Dizia: «sede, em primeiro lugar, sacerdotes; depois sacerdotes; sempre e em tudo, só sacerdotes». Nesta afirmação transparece o seu altíssimo conceito do sacerdócio ministerial, pelo que uns pobres homens – que isso somos todos diante do Senhor – são constituídos servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus (1 Cor 4, 1). Tão firme era a sua fé na identificação sacramental com Cristo que se leva a cabo no sacramento da Ordem, que o seu único sinal de glória, ao lado do qual empalideciam todas as honras da terra, era simplesmente ser sacerdote de Jesus Cristo.

Os santos, desde os tempos mais antigos, têm comentado a dignidade do sacerdócio. Vários Papas – entre os quais recordo especialmente S. Pio X, Pio XI e o actual Romano Pontífice – escreveram documentos inesquecíveis, que têm alimentado e continuam a alimentar a nossa vida sacerdotal. Também S. Josemaria nos deixou o seu ensinamento. Numa homilia de 1973, quando se espalhavam vozes confusas sobre a identidade do sacerdote e o valor do sacerdócio ministerial, resumia o seu pensamento com as seguintes palavras: «esta é a identidade do sacerdote: instrumento imediato e diário da graça salvadora que Cristo ganhou para nós. Se se compreende isto, se isto é meditado no silêncio activo da oração, como se pode considerar o sacerdócio uma renúncia? É um ganho impossível de calcular. A Nossa Mãe Santa Maria, a mais santa das criaturas – mais do que Ela, só Deus – trouxe Jesus ao mundo uma vez; os sacerdotes trazem-no à nossa terra, ao nosso corpo e à nossa alma, todos os dias: Cristo vem para nos alimentar, para nos vivificar, para ser, desde já, penhor da vida futura»


O sentido da grandeza do sacerdócio levava-o a cuidar com esmero a sua vocação sacerdotal, da qual se encontrava cada vez mais enamorado. Quando, para atender aos pedidos dos que estavam ao seu lado, se referia às vezes ao processo da sua vocação, sempre fazia sobressair a iniciativa de Deus, que lhe saiu ao encontro quando tinha quinze ou dezasseis anos. Como bem sabeis, foi em Logronho, em Dezembro de 1917 ou Janeiro de 1918, onde o adolescente Josemaria Escrivá teve os primeiros pressentimentos de que o Senhor o chamava para algo que não sabia o que era. Não lhe tinha passado pela cabeça a possibilidade do sacerdócio. Contudo, perante essa acção de Deus, com o fim de melhor se preparar para cumprir a Vontade divina, decidiu ir para o Seminário. Com toda a verdade podia afirmar, passados os anos, que o começo da sua vocação sacerdotal tinha sido «uma chamada de Deus, uma suspeita de amor, um enamoramento de um rapaz de quinze ou dezasseis anos»

No Seminário de Logronho recebeu a primeira formação sacerdotal, que depois completaria em Saragoça. Deus queria que a semente que ia lançar sobre a terra a 2 de Outubro de 1928, encontrasse um coração de sacerdote preparado a fundo para a acolher e fazer frutificar. Por isso, grato a Nosso Senhor, S. Josemaria afirmava que a sua vocação era – deixai-me que insista – a de ser sacerdote, só sacerdote, sempre sacerdote. Amava com loucura esta condição que, configurando-o com Cristo, o havia preparado para ser instrumento, nas mãos de Deus, para a fundação do Opus Dei.

Dom e tarefa

Ao enumerar as condições dos candidatos ao sacerdócio, antigamente prescrevia-se que deveriam ser escolhidos entre homens que levassem uma vida honesta. Esta norma, minimalista e já superada, parecia muito pobre a S. Josemaria. «Entendemos, com toda a tradição eclesiástica – escrevia em 1945 –, que o sacerdócio pede – pelas funções sagradas que lhe competem – algo mais que uma vida honesta: exige uma vida santa em que o exerce, constituídos – como estão – em mediadores entre Deus e os homens»


Josemaria Escrivá tinha recebido, no seio da sua família e no colégio, uma formação profundamente cristã, que incluía o conhecimento da doutrina, a frequência dos sacramentos, a preocupação concreta pelas necessidades espirituais e materiais das pessoas, como referem diversas testemunhas daquela época. Ao receber a chamada divina para o sacerdócio, a sua existência mudou radicalmente, no sentido de que aumentou a intensidade e frequência da sua intimidade com Deus e a sua preocupação com os outros. Isto levou-o a uma maturidade não adequada à idade que tinha, mas sobrenaturalmente lógica. Cumpria-se na sua vida o que afirma a Sagrada Escritura: super senes intellexi quia mandata tua servavi 4, sou mais sagaz que os idosos, porque observo os teus preceitos. Desde aqueles pressentimentos, o adolescente Josemaria começou a tomar a sério a santidade, procurando conhecer e cumprir fidelissimamente a Vontade de Deus....


Como membros do Corpo Místico de Cristo, em que fomos enxertados pelo Baptismo, todos fomos santificados com radicalidade: trazemos em nós o gérmen e início da vida nova que Cristo nos ganhou com a sua Morte e a sua Ressurreição. A consagração baptismal é a realidade fundamental do chamamento à santidade em todos os géneros de vida. Deste ponto de vista, atendendo à absoluta gratuidade daquilo que recebemos, a santificação surge claramente na sua dimensão de dom: um presente imerecido que o nosso Pai-Deus nos dá, em Cristo, pelo Espírito Santo. Ao mesmo tempo, a santificação é uma chamada pessoal, uma tarefa que se outorga à responsabilidade da cada cristão. S. Josemaria dirá que é obra de toda a vida 6.

A santidade é, pois, dom e tarefa. Entrega gratuita de um bem imerecido e, ao mesmo tempo, encargo que devemos levar até ao fim com esforço pessoal, com correspondência heróica, empenhando-nos num verdadeiro compromisso de vida cristã.

A santidade sacerdotal como dom

Ao ser uma única a condição radical de todos os baptizados, todos – sacerdotes e leigos – somos chamados de igual modo à plenitude da vida cristã. «Não há santidade de segunda categoria: ou existe uma luta constante por estar na graça de Deus e ser conformes a Cristo, nosso Modelo, ou desertamos dessas batalhas divinas. Nosso Senhor convida-nos a todos, para que cada um se santifique no seu próprio estado»

Estamos face a uma das intuições fundamentais que S. Josemaria Escrivá pregou, por encargo divino, desde 1928. Ao fundar o Opus Dei, o Senhor mostrou-lhe que cada pessoa deve procurar santificar-se no próprio estado, no género de vida em que foi chamado, no seu próprio trabalho e através do seu próprio trabalho, segundo a conhecida expressão de S. Paulo: permaneça cada um naquele estado em que Deus o chamou (1 Cor 7, 20).


A santidade, nos sacerdotes e nos leigos, edifica-se, portanto, sobre o mesmo fundamento: a consagração originária do Baptismo, aperfeiçoada pela Confirmação. Contudo, é evidente que o dever de alcançar a santidade urge especialmente o sacerdote, que foi tomado de entre os homens, no que se refere a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados (Hb 5, 1).


«Em contínuo contacto com a santidade de Deus – escreveu João Paulo II – o próprio sacerdote deve tornar-se santo. É o seu próprio ministério que o obriga a uma opção de vida inspirada no radicalismo evangélico» 8. E acrescenta no livro Dom e Mistério, escrito pela ocasião do quinquagésimo aniversário da sua ordenação sacerdotal: «Se o Concílio Vaticano II fala da vocação universal à santidade, no caso do sacerdote é preciso falar de uma especial vocação à santidade. Cristo precisa de sacerdotes santos! O mundo de hoje reclama sacerdotes santos! Só um sacerdote santo se pode tornar, num mundo cada vez mais secularizado, uma testemunha transparente de Cristo e do seu Evangelho. Só assim é que o sacerdote pode tornar-se guia dos homens e mestre de santidade»


O sacerdote foi consagrado duas vezes para Deus: no Baptismo, como todos os cristãos, e no sacramento da Ordem. Por isso, se não se pode falar de santidade de primeira ou de segunda categoria – porque todos somos convidados à perfeição com a que o Pai celestial é perfeito (cfr. Mt 5, 48) – não há dúvida de que sobre os sacerdotes recai especialmente o dever de aspirar à santidade. Releiamos umas palavras do Fundador do Opus Dei que resultam especialmente clarificadoras. «Todos os cristãos podem e devem ser, não já alter Christus, mas ipse Christus: outros Cristos, o próprio Cristo! Mas no sacerdote isto dá-se imediatamente, de forma sacramental»


No exercício do ministério para o qual foi ordenado, encontra o sacerdote o alimento da sua vida espiritual, o material que o faz arder no amor de Deus. Por isso, seria um grave erro se outras aspirações ou outras tarefas esbatessem na sua alma o que, para ele, se concretiza em algo de indispensável para alcançar a santidade: a celebração cuidadosa e cheia de amor do Sacrifício da Missa, a pregação da Palavra de Deus, a administração dos sacramentos aos fiéis, especialmente o da Penitência; uma vida de oração constante e de penitência alegre; o cuidado das almas que lhe são confiadas, junto com os mil um serviços que uma caridade vigilante sabe dispensar.


Desde que intuiu a chamada para o sacerdócio, e mais explicitamente, desde que foi ordenado sacerdote, S. Josemaria quis identificar-se com Cristo, ser o próprio Cristo, no exercício do ministério sacerdotal e em toda a sua existência. Daí a sua vida de oração, a sua celebração pausada da Missa, a sua “necessidade” de permanecer longos momentos junto ao Sacrário; e, ao mesmo tempo, a sua urgência em procurar as almas para as conduzir a Cristo, por caminhos de santidade. Compreendeu que se pode e se deve levar um comportamento santo em todos os estados da vida, e concretamente no matrimónio; por isso, desde os seus primeiros anos como pastor, além de encaminhar muitas pessoas pelo caminho do celibato apostólico assumido com verdadeira alegria, animou muitas outras a descobrir a dignidade da vocação matrimonial.


Escreve João Paulo II: «Posso dizer que se encontra cada dia mais, naquele Mysterium fidei, o sentido do próprio sacerdócio. Ali está a medida da resposta que tal dom requer. O dom é cada vez maior! E é maravilhoso que assim seja. Bom é que um homem não possa dizer nunca que já correspondeu plenamente ao dom. É um dom e também uma tarefa: sempre! Ter consciência disto é fundamental para se viver plenamente o próprio sacerdócio»

S. Josemaria Escrivá celebrava cada dia a Santa Missa com paixão de enamorado, bem consciente de que «pelo sacramento da Ordem, o sacerdote torna-se efectivamente apto para emprestar a Nosso Senhor a voz, as mãos, todo o seu ser» 12. Reparai como descrevia numa reunião familiar esse misterioso eclipse da personalidade humana do presbítero, que nesses momentos se converte em instrumento vivo de Deus:


«Chego ao altar e a primeira coisa em que penso é: Josemaria, tu não és Josemaria Escrivá de Balaguer (…): és Cristo. Todos os sacerdotes somos Cristo. Eu empresto ao Senhor a minha voz, as minhas mãos, o meu corpo, a minha alma: dou-lhe tudo. É Ele quem diz: isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue, é ele que consagra. Se não, eu não poderia fazê-lo. Ali renova-se de modo incruento o divino Sacrifício do Calvário. De maneira que estou ali in persona Christi, fazendo as vezes de Cristo. O sacerdote desaparece como pessoa concreta: o P.e Fulano, o P.e Beltrano ou Josemaria… Não Senhor! É Cristo»

A santidade sacerdotal como tarefa

A grandeza incomparável do sacerdote fundamenta-se na sua identificação sacramental com Cristo, que o leva a ser ipse Christus e a actuar in persona Christi capitis, sobretudo na celebração eucarística e no ministério da Reconciliação. «Uma grandeza emprestada, compatível com a minha pequenez. Peço a Deus Nosso Senhor que nos dê, a todos os sacerdotes, a graça de realizar santamente as coisas santas, de reflectir, também na nossa vida, as maravilhas das grandezas de Nosso Senhor»


Cada cristão deve procurar que a sua condição de seguidor de Jesus Cristo se reflicta em toda a sua conduta: na família, na profissão, na actividade social, pública, desportiva… Também na existência concreta do sacerdote, na sua vida diária, deve manifestar-se a sua específica relação com Cristo. Pelo carácter indelével recebido na ordenação, é-se sacerdote durante as vinte e quatro horas do dia, não só nos momentos em que exercita expressamente o ministério. Convém tê-lo muito presente na época actual, quando vão desaparecendo – da nossa sociedade multicultural e multi-religiosa – tantos sinais que recordavam aos nossos antepassados a primazia de Deus e da vida sobrenatural. Não o digo com pessimismo, mas sim com ânimo de que nos esforcemos para que não se percam as raízes cristãs do nosso povo, que se manifestam também em tradições piedosas, em elementos da cultura, da arte e dos costumes.


O sacerdote deve chegar à meta da santidade, como por um plano inclinado, sob a direcção do Espírito Santo, que é quem modela nos filhos adoptivos de Deus os traços de Jesus Cristo. Neste processo, que dura toda a vida, junto com a acção sobrenatural da graça, é decisiva a resposta dócil da criatura.


Sem esforço por praticar as virtudes, sem luta por desenvolvê-las todos os dias, com constância, não é possível a santidade. Em que se centram os hábitos virtuosos que hão de estruturar a santidade do sacerdote? No mesmo que nos demais fiéis, pois todos somos chamados a meta idêntica – a união com Deus – e dispomos dos mesmos meios para alcançá-la. A diferença apoia-se no modo de exercitar essas virtudes. No sacerdote, tudo deve cumprir-se sacerdotalmente; quer dizer, tendo sempre presente a finalidade da sua vocação específica, o serviço às almas. Temos de seguir o exemplo do Senhor, que afirmou de si mesmo: Eu consagro-Me por eles, para eles serem também consagrados na verdade (Jo 17, 19).

Torna-se impossível, neste breve tempo, expor uma súmula completa das virtudes sacerdotais. Limitar-me-ei a apresentar algumas que considero capitais no ensino e no exemplo de S. Josemaria.

Virtudes humanas do sacerdote

Utilizando a metáfora da construção – imagem de raízes bíblicas –,o que primeiro se procura é um terreno sólido. O próprio Cristo alude a esta necessidade, na conclusão do Sermão da Montanha, quando fala do homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha, de modo que, quando chegaram os ventos e as chuvas, nada puderam contra essa casa (cfr. Mt 7, 24-25).


Na vida espiritual do cristão, o terreno sólido do edifício espiritual configura-se pelas virtudes humanas, pois a graça pressupõe sempre a natureza. Convém não esquecer que o sacerdote não deixa de ser homem ao receber a ordenação. Pelo contrário, precisamente por ter sido escolhido dentre os homens e constituído mediador entre os homens e Deus (cfr. Hb 5, 1), necessita cuidar a sua preparação humana, que o torna mais capaz de servir melhor as almas.

«Compreende esta formação – escreve Mons. Álvaro del Portillo – o conjunto de virtudes humanas que se incluem directa e indirectamente nas quatro virtudes cardeais, e a bagagem de cultura não eclesiástica indispensável para que o sacerdote possa exercer com facilidade – ajudado, evidentemente, pela graça – o seu apostolado» 15. O meu predecessor à frente da Prelatura do Opus Dei realça os motivos principais que devem levar o sacerdote a adquirir e a desenvolver estas virtudes: «O primeiro, como parte da luta ascética normalmente necessária para chegar à perfeição; o segundo, como meio para exercitar com maior eficácia o apostolado»



Na vida e nos ensinamentos de S. Josemaria, é claro este aspecto basilar da formação cristã e da especificamente sacerdotal. Temos numerosas provas desta afirmação, desde a sua infância até ao seu falecimento em 1975. As testemunhas do seu trabalho pastoral são unânimes ao descrevê-lo como um sacerdote enamorado de Jesus Cristo, entregue ao serviço das almas, com uma personalidade forte e harmoniosa, na qual o humano e o sobrenatural se fundiam estreitamente em unidade de vida. Pelo que se refere aos seus ensinamentos, resulta paradigmática a homilia “Virtudes humanas”, recolhida no livro Amigos de Deus, onde assenta o fundamento teológico da necessidade de cultivar as virtudes humanas: a profundidade da Encarnação do Verbo, perfeito Homem sem deixar de ser perfeito Deus. Nessa homilia analisa as principais virtudes que um cristão e um sacerdote devem cultivar: a fortaleza, a serenidade, a paciência, a laboriosidade, a ordem, a diligência, a veracidade, o amor à liberdade, a sobriedade, a temperança, a audácia, a magnanimidade, a lealdade, o optimismo, a alegria.


D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei
fonte : www.josemariaescriva.info

18.7.09

São João Maria Vianey

O jovem pároco João Maria Batista Vianney não prometia sucessos retumbantes, mas ao ser nomeado para o vilarejo perdido de Ars, o seu imenso amor a Deus transformou a fundo não apenas os seus paroquianos, mas milhões de peregrinos da França inteira.

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Era ao entardecer de 9 de fevereiro de 1818, uma terça-feira. Um pastorinho de dezesseis anos, Antoine Givre, que guardava as ovelhas na lande das Dombes, teve um encontro estranho, que havia de recordar durante toda a vida. Ia cair a noite. Já as luzes se acendiam nas janelas das casas, agrupadas a algumas centenas de metros, para além de um valado. Do lado da estrada de Lyon, o rapaz ouviu um barulho e olhou: era um padre que avançava a grandes passadas de camponês; a seu lado, uma velha de touca na cabeça; atrás deles, uma carriola vacilante, carregada de fardos e de uma misturada de coisas, no meio das quais se via uma cama de madeira. O padre saudou o pequeno e perguntou-lhe se ainda estava longe de uma aldeia chamada Ars. Antoine indicou com a mão o humílimo povoado que já se ocultava no crepúsculo. “Como é pequeno!”, murmurou o padre. E ajoelhou-se. Em silêncio, durante muito tempo, rezou, de olhos postos nas casas. Rezou com um fervor e uma atenção extraordinários. Dir-se-ia que via coisas de que os outros não faziam a menor idéia. Ao levantar-se, olhou para o rapaz e, com voz muito simples, disse: “Tu mostraste-me o caminho de Ars… Um dia hei de mostrar-te o caminho do Céu”. Em seguida, retomou a marcha. A capelania de Ars-en-Dombes – que não tinha mais de duzentas almas e estava subordinada à paróquia de Misérieux, da diocese de Lyon – recebia o seu novo encarregado.

Chamava-se Jean-Marie Vianney. Nascera trinta e dois anos antes (1786), numa aldeia situada a umas dez léguas, Dardilly, onde os pais eram gente dedicada ao campo; e gente piedosa, como ainda havia tantos na França. Por curiosa coincidência, um dia sentara-se à mesa deles São Bento Labre, “o anjo andrajoso”, no decurso da sua grande peregrinação. Já aos sete anos, o pequeno Jean-Marie mostrara uma inclinação tão evidente para a oração que se falara de fazer dele frade ou padre. Levava para os campos onde guardava algumas vacas uma imagenzinha de Nossa Senhora, que colocava no buraco de um salgueiro para se ajoelhar diante dela. Com a Revolução, viera a grande caça aos padres. O pequeno tivera de aprender o catecismo às escondidas e de fazer a primeira comunhão clandestinamente, numa casa com a porta e as janelas fechadas. E o espetáculo da resistência do clero francês à perseguição acabara de enraizar nele a vocação religiosa. Mais ainda: uma vocação para o heroísmo, o sacrifício, a grandeza espiritual.

Infelizmente, para ser padre e ter o direito e os meios de “ganhar almas para Deus”, não basta a boa vontade, não basta o impulso do coração: é preciso estudar, aprender latim, liturgia, teologia e tantas coisas mais! Nesse campo, Jean-Marie Vianney mostrara-se muito decepcionante. O seu cérebro, maravilhosamente capaz de fixar os fatos da vida prática e de penetrar nos seres, era radicalmente incapaz de armazenar as declinações latinas e as mais elementares noções de dogmática! Se não tivesse encontrado no seu caminho um homem para o compreender, não há dúvida de que nunca teria chegado a vencer os sucessivos obstáculos que o separavam do sacerdócio. Nos seminários de Verrières e, depois, no de Santo Ireneu, perto de Lyon, que fraca figura tinha feito o pobre pequeno! Mas M. Belley velara por ele, M. Belley, pároco de Ecully, abelha operária de uma dessas equipes de missionários que, em pleno Terror, o pe. Linsolas, vigário geral de Lyon, tivera a audácia de fundar. Graças a Belley, Jean-Marie conseguira receber o diaconado, em 1814, e, no ano seguinte (a 13 de agosto), a ordenação sacerdotal, na capela do Seminário Menor de Grenoble, algumas semanas depois da queda do Império. Coadjutor em Ecully, acabara de se preparar junto do seu mestre para uma existência sacerdotal inteiramente devotada às almas e também cheia de práticas de piedade e ascese: flagelações, jejuns, cilício. Era de Ecully que chegava, nesse entardecer brumoso de 9 de fevereiro de 1818, à minúscula aldeia de Ars. E lá iria ficar durante quarenta e um anos…

Fisicamente, era um corpanzil rústico, de andar pesado, rosto alongado e magro, cujas “maçãs” se iam adelgaçando até ao queixo esguio, e em que o nariz ossudo despontava sobre uns lábios finos. O único dado apreciável dos seus traços sem graça eram os olhos, olhos de um azul-cinzento, de uma limpidez e uma capacidade de concentração igualmente extraordinárias. Mais tarde, quando estiver no auge da sua celebridade, uma toleirona burguesa, vinda expressamente de Paris para admirar o grande homem, vendo-o assim, exclamará: “É só isto, o Cura d´Ars?!” Pois só isso, esse camponês bronco, mal vestido, com uma batina remendada e esverdeada à força de uso, esse homenzinho facilmente brincalhão e que se chamava a si próprio o burrinho ou o idiota da aldeia?! Como não deixar desconcertada uma parisiense! E essa reputação de ignorante, de caranguejo com orelhas de burro, que o seguia desde o seminário e que ele mesmo parecia cultivar com prazer…

Mas a verdade desse homem não estava aí. É óbvio que era exatamente o contrário desse minus habens, desse “primário intelectual” de que falariam os redatores da Idée libre. A inteligência não se mede só pela dose de conhecimentos livrescos que pode assimilar, e, quanto a tudo o que pertencia à vida e não ao impresso, Jean-Marie Vianney era uma inteligência fora de série. E, sobretudo, havia nele alguma coisa superior à inteligência: uma forma de “ver as coisas do alto”, como disse o cardeal de Bonald, um dom de intuição que escapava a toda a lógica, mas que se revelava quase infalível, uma grandeza que se impunha ao interlocutor mais obtuso ou mais hostil: numa palavra, uma força soberana, a par da simplicidade mais natural e da mais autêntica humildade. “Para crer na presença do Sobrenatural – pôde alguém dizer dele -, basta olhá-lo”. Todos os que o viram deram o mesmo testemunho da sua irradiação espiritual, da misteriosa “aura” que rodeava o seu corpo sem prestígio. Uma palavra resume tudo sobre a realidade profunda que o sustentava. Foi dita pelo bispo de Belley, num dia em que alguns padres deploravam diante dele, cheios de compaixão, a ignorância do seu confrade, a nulidade que era em matéria de teologia e de casuística: “Não sei se ele é instruído; sei que é iluminado”.

Assim era, pois, aquele que Ars-en-Dombes ia guardar durante quarenta e um anos seguidos, aquele que viria a identificar-se tão totalmente, tão plenamente, com essa ínfima aldeia, que iria como que ser absorvido por ela, perder até o nome de família a favor do seu pobre título, não ficando a ser, “tanto no futuro como no Céu”, nada mais que o Cura d´Ars. Quarenta e um anos, “e sempre contra vontade” – diz a excelente Catherine Lassagne, que o acompanhou no seu presbitério. Porque, torturado pela angústia de não ser digno da pesada missão de padre, esse humilde diante de Deus há de fugir da paróquia pelo menos três vezes, decidido a deixar o lugar “a alguém menos ignorante”, e serão os próprios paroquianos que o reterão, à custa de mil e uma astúcias. Quarenta e um anos de uma vida que, aparentemente, parecerá a mais banal, a mais monótona que se possa imaginar, mas na qual se desenrolará, num plano que já não pertence à terra, a aventura mística mais espantosa da sua época.

Quando Jean-Marie chegou, Ars não passava da mais morna das comunidades cristãs. “Lá, não gostavam muito de Deus”. Mas, logo que viram como vivia o novo cura, os paroquianos compreenderam que alguma coisa tinha mudado. Começou por mandar restituir ao castelo os móveis confortáveis que a piedosa Mme. des Garets tinha emprestado ao presbitério. Depois, pôs-se a restaurar a igreja, que estava caindo aos pedaços, fazendo por suas próprias mãos “o trabalho doméstico de Deus”. A seguir, só se falava na aldeia de que o novo encarregado da capelania de Ars tinha um modo singularíssimo de alimentar-se: umas tantas côdeas de pão seco, uma panela de batatas, que mandava coser cada três semanas e que ia comendo frias. Por último, as boas mulheres que, de tempos a tempos, conseguiam penetrar na casa paroquial para cuidar dos trabalhos domésticos, contavam que encontravam roupa ensangüentada, manchas vermelhas nas paredes… E compreendeu-se então para que serviam as correntes que o padre mandara forjar na oficina do ferreiro. Esses jejuns, essas penitências – que o Cura d´Ars conservará durante toda a vida – fizeram tanto maior impressão quanto a verdade é que essa terrível ascese não impedia M. Vianney de ser de uma delicadeza, de uma mansidão perfeitas, sem querer impor a ninguém os golpes de disciplina que a si mesmo infligia – e que nem uma só vez deixou transparecer. Quando, porém, este ou aquele se permitia aludir aos rigores que ele aplicava ao seu corpo, respondia com o melhor dos sorrisos que era coisa muito apropriada para “o velho Adão” ou “o cadáver”…

Poder do exemplo: foi, indubitavelmente, por aí que Jean-Marie Vianney se impôs: primeiro, às suas ovelhas; depois, a outras. Pouco a pouco, a paróquia transformou-se. Homens, mulheres, crianças foram agrupados em confrarias ou obras. Abriu-se uma escola gratuita, a “Casa da Providência”, aonde afluíram as meninas, incluindo as órfãs, as abandonadas, as desafortunadas. Os maus hábitos, como o do baile e da taberna, contra os quais o padre era severo, foram desaparecendo da paróquia. Para não o desgostarem, os moços e as moças menos recatados refreavam o seu comportamento. “O respeito humano voltou-se do avesso”, e passou a ser tão vergonhoso apanhar uma bebedeira como o era, na véspera, não beber com os outros. A igreja, ainda ontem meio vazia, encheu-se e, como a gente dos arredores ganhou o costume de a freqüentar, passou a ser pequena. Quem havia de prever semelhante mudança, quando, meia dúzia de anos antes, o arcebispo encarara seriamente a hipótese de suprimir a paróquia?

E, no entanto, Jean-Marie Vianney não era grande orador; o que servia aos seus ouvintes não eram grandes trechos de eloqüência. Tinha a voz gutural; tendia a gritar; muitas vezes perdia o fio do discurso, parava e depois retomava a palavra fosse lá como fosse; por fim, como não sabia como acabar, cortava o sermão e descia do púlpito subitamente. Quanto à matéria dos sermões, nada tinha de original. O mesmo se diga da catequese, que dava a crianças e adultos várias vezes por semana. Não tinha escrúpulo em ir buscar material às coletâneas de Bonnardel, de Joly, de Billot, do pe. Lejeune, sermonários de largo uso na época, assim como ao catecismo do campo. Copiava um parágrafo aqui, outro acolá, harmonizava-os conforme podia; mas, sobre todo esse mosaico, punha a sua marca, transformando as frases excessivamente bem construídas em fórmulas simples, populares, com comparações e imagens que impressionavam o ouvinte. Por exemplo: para mostrar a ação do pecado na alma, comparava-o a uma mancha de azeite num pano de lã: mesmo que a lavemos dez vezes, não sai! E, ao passarem pelos seus lábios – todos os que o ouviram concordam nisto –, esses pobres sermões ganhavam um poder de sugestão extraordinário. Podia anunciar os castigos do Juízo Final, ou falar interminavelmente do amor de Deus pelos homens, da sua infinita misericórdia, que encontrava sempre, como por instinto, as palavras que iam até ao fundo das almas. E que dom de descobrir fórmulas! Pelo menos uma delas ficou a pertencer ao mais raro florilégio do pensamento cristão. Ouvindo certo dia uma viúva que estava angustiada porque o marido se tinha lançado ao rio e se afogara, e que tremia convencida de que ele se condenara, que lhe respondeu o Cura de Ars? Simplesmente isto: “Entre a ponte e a água, houve tempo para o arrependimento e o perdão”. Entre a ponte e a água…

Era assim o padre que a aldeia de Ars conservou por quarenta e um anos. O padre. E esta única palavra diz tudo. Porque Jean-Marie Vianney não foi senão um padre, um simples padre, todo ele entregue às almas, devorado pela sua missão, integralmente fiel à sua vocação. Nada mais que isso; nada menos que isso. Mas esse sacerdócio, que estivera a ponto de lhe ser recusado, fê-lo ele subir a um nível tão alto que se revelou inigualável. Nunca ninguém falou melhor que ele acerca do padre, da grandeza da sua função, do seu papel sobrenatural. “Ah! Como o padre é qualquer coisa de grande! O padre só poderá ser compreendido no Céu. Se o compreendêssemos neste mundo, morreríamos – não de terror, mas de amor… Depois de Deus, o padre é tudo! Deixai uma paróquia vinte anos sem padre: hão de adorar os animais!

Mas também ninguém disse melhor que ele o que há de terrível para um homem em ser depositário do poder de Deus, em ter o direito de absolver e o de fazer o próprio Deus descer à hóstia. “Como é terrível ser padre!” – repetia muitas vezes –, e o seu rosto inundava-se de lágrimas. “Como é de lamentar um padre quando diz missa como coisa banal… Oh!, como é infeliz um padre a quem falte interioridade!” Um padre. Apenas padre. Aí reside o caráter extraordinário da sua aventura. Foi só por não ter sido nada mais que padre que Jean-Marie Vianney se tornou uma glória da terra, antes de ser um santo.

Sim. Pouco a pouco, ou melhor, bem depressa, o renome do Cura d´Ars transbordou do quadro estreito da sua minúscula paróquia. Chamavam-no aqui, ali, acolá, para falar, para confessar. E, sobretudo, espontaneamente, havia homens e mulheres que se lançavam à estrada, por terem ouvido dizer que, algures nos Dombes, numa aldeia perdida, havia um padre que falava de Deus, confessava, confortava. Menos de dez anos depois de ter chegado, a corrente de peregrinos que afluía a Ars tomara a força de um acontecimento, não somente regional, mas nacional e internacional. Calcula-se em 80.000, em média, os peregrinos que, ano após ano, e durante trinta anos, se sucederam em Ars. No último ano, que foi o da morte do santo, foram para cima de 100.000. A aldeia mais que duplicou. À volta da igreja, conforme se vê nas gravuras da época, multiplicaram-se as “pensões burguesas” e as lojas onde se vendiam objetos de devoção.

Quem eram esses que acorriam a Ars? Vinham de todos os países, pertenciam a todas as classes sociais. Aquele a quem os companheiros de seminário chamavam pobre de espírito, aquele de quem alguns colegas de sacerdócio troçavam por ser intelectualmente nulo, era procurado por homens notáveis que o vinham consultar: intelectuais de alto nível, almas comprovadamente espirituais, como, por exemplo, o pe. Lacordaire, preocupado com o futuro da sua Ordem, ou o pe. Chevrier, fundador, em Lyon, do Prado, ou o pe. Muard, que iria fundar os beneditinos da Pierre-qui-Vire, ou mons. Ségur, o bispo cego, ou mons. Ullathorne, inglês convertido, discípulo de Wiseman, por este enviado a Roma para resolver a questão do restabelecimento da Hierarquia na Inglaterra e que parou em Ars e chegou a pensar em nunca mais sair de lá… Não havia ninguém que não se retirasse consolado, encorajado, guiado. Ninguém que não pudesse dizer, como certo humilde vinhateiro do Mâcon: “Vi Deus num homem”.

Esse prodigioso afluxo teve, para o Cura d´Ars, uma conseqüência penosa. A sua vida tornou-se a vida de um forçado de Cristo, noite e dia preso a uma tarefa cuja amplitude ia além das forças humanas. É certo que lhe tinham dado um auxiliar, que, de resto, pelo seu temperamento, foi para ele, muita vez, ocasião de penitências suplementares… E até se constituiu um grupo de missionários destinado a ajudá-lo. Mas era ele, só ele, quem os inúmeros fiéis queriam ver; só a ele queriam confiar as suas misérias; só dele esperavam esperança e paz.

Então, devorado pelo zelo das almas, Jean-Marie Vianney fez-se escravo do confessionário. Nessa pequena caixa de madeira em que no inverno gelava e no verão abafava, passava horas, dias, meses, anos inteiros… Chegou a ficar lá dezoito horas seguidas! Também chegou a desmaiar, sufocado com a falta de ar e o mau cheiro. Os dias eram para ele “regulados como uma pauta de música”. Pouco depois da meia noite, ia para a igreja, de lanterna na mão. Já a multidão o esperava à porta e logo começava o desfile. Foi preciso organizar um serviço de ordem! As mulheres eram atendidas no confessionário, que ficava numa capela lateral. Os homens que não gostavam de ser vistos iam à sacristia. Os padres – o próprio bispo de Belley – ajoelhavam-se por trás do altar-mor. Quer a confissão fosse longa ou curta, a exortação do padre era sempre breve, mas bastava para que o penitente ficasse transtornado e, muitas vezes, se retirasse de rosto banhado em lágrimas. Nesse desenrolar atrozmente monótono de feios pecados, de impurezas grandes ou pequenas, só duas interrupções: uma, para a missa, pelas quatro da manhã; outra, para o catecismo, às onze. E isso durou mais de trinta anos…

Semelhante heroísmo seria ainda deste mundo? À volta desse homem de Deus, o sobrenatural surgia em tudo. Uma coisa era certa: ele tinha o dom de ler nos corações. Bem o descobriam à sua custa aqueles que tentavam trapacear com Deus, calar pesadas faltas, diminuir um pouco a conta dos anos em que não se tinham confessado: com um olhar, o padre trespassava-os como um raio de luz, e, em duas palavras, situava-os diante da triste verdade da sua miséria.

Veria ele ainda mais alguma coisa, outras realidades? Ferozmente mudo sobre este ponto, fugindo a todas as perguntas, recusava-se a dizer se era verdade que tivera visões de Nossa Senhora, de São João Batista, de alguns outros santos talvez, como insistentemente se dizia. “Uma impressão que tive muitas vezes – diz um dos seus íntimos, que freqüentemente o ajudava à missa – é que ele via aquilo que adorava”. Mas havia outro capítulo sobre o qual o santo era um pouco mais loquaz: o da luta terrível, que, por mais de trinta anos, sustentou com o adversário, o próprio Satanás, a quem chamava, com um termo saboroso, “le grappin” [“a fisga”], e que reconhecia ter encontrado tanta vez que eram “como dois velhos camaradas”. Quanto aos seus milagres, dos quais o processo de canonização consideraria uns trinta, todos eles tinham um ar de simplicidade que devemos dizer evangélica: multiplicação do pão para o orfanato da paróquia, cura de enfermos, leituras do futuro. Em todos eles se encontrava, como diziam os cristãos da primitiva Igreja, “o bom odor de Cristo”.

A glória humana acompanhou essa glória celeste, singularmente manifestada na terra. Os peregrinos de Ars difundiam-na ao longe e ao largo, de modo que vinham pelas estradas das Dombes curiosos, até descrentes, que, na maior parte dos casos, de lá voltavam adivinhados, confusos, demudados. A imprensa falava. Nas lojas próximas da igreja, vendiam-se estampas com a figura do santo cura, o que bastava para o fazer zangar-se: “É o meu carnaval”, dizia ele, mostrando-as. Pôs no olho da rua o escultor que teve a imprudente audácia de lhe pedir licença para fazer a sua estátua. Quando o bispo lhe enviou a murça de cônego honorário, o santo agradeceu-lhe muito amavelmente, mas logo vendeu o inútil ornamento e pôs o dinheiro ao serviço dos pobres. Quanto à Legião de Honra que o sub-prefeito de Trévoux conseguiu para ele, recusou-se evidentemente a colocá-la ao peito e imediatamente a deu de presente, visto que era um objeto sem valor comercial e inútil para as suas obras de caridade. Nada lhe iria faltar para entrar na lenda em vida. Nada: nem sequer a ácida inveja de alguns dos seus confrades, ou a gritaria daqueles a quem incomodava, ou até as cartas anônimas e as injúrias. A todos os ataques respondia afirmando que os piores tratamentos eram ainda suaves demais para um asno e um pecador da sua laia, o que deixava envergonhados os cínicos.

Nos últimos dias de julho de 1859, a morte, cuja chegada anunciara, veio arrancá-lo por fim à sua tarefa sem medida. Morreu na noite de 3 de agosto, de olhos voltados para o Céu, “com uma expressão extraordinária de fé e de felicidade”, no dizer de uma testemunha. E logo acorreram multidões, massas imensas de gente, em que se misturavam os ricos e os pobres, entre eles o novo bispo de Belley, que se deslocou a pé desde Meximieux, a quarenta quilômetros, “sem fôlego, comovido, rezando em voz alta”. Ars bem sabia que tinha acabado de perder um santo.

fonte : Eclesia Una

21.6.09

Entrevista com São Pio de Pieltrecina sobre Santa Missa

Entrevista com Padre Pio sobre a Missa

Padre, o Sr. ama o Sacrifício da Missa?

Sim, porque Ela regenera o mundo.

Que glória dá a Deus a Missa?

Uma glória infinita.

Que devemos fazer durante a Missa?

Compadecer-nos e amar.

Padre, como devemos assistir à Santa Missa?

Como assistiram a Santíssima Virgem e as piedosas mulheres. Como assistiu S. João Evangelista ao Sacrifício Eucarístico e ao Sacrifício cruento da Cruz.

Padre, que benefícios recebemos ao assistir à Santa Missa?

Não se podem contar. Vê-lo-ás no céu. Quando assistires à Santa Missa, renova a tua fé e medita na Vítima que se imola por ti à Divina Justiça. Não te afastes do altar sem derramar lágrimas de dor e de amor a Jesus, Crucificado por tua salvação. A Virgem Dolorosa te acompanhará e será tua doce inspiração.

Padre, que é sua Missa?

Uma união sagrada com a Paixão de Jesus. Minha responsabilidade é única no mundo. (Dizia-o chorando.)

Que devo descobrir na sua Santa Missa?

Todo o Calvário.

Padre, diga-me tudo o que o senhor sofre durante a Santa Missa.

Sofro tudo o que Jesus sofreu na sua Paixão, embora sem proporção, só enquanto pode fazê-lo uma criatura humana. E isto, apesar de cada uma de minhas faltas e só por sua bondade.

Padre, durante o Sacrifício divino o senhor carrega os nossos pecados?

Não posso deixar de fazê-lo, já que é uma parte do Santo Sacrifício.

O senhor considera a si mesmo um pecador?

Não o sei, mas temo que assim seja.

Eu já vi o senhor tremer ao subir aos degraus do altar. Por quê? Pelo que tem de sofrer?

Não pelo que tenho de sofrer, mas pelo que tenho de oferecer.

Em que momento da Missa o senhor sofre mais?

Na Consagração e na Comunhão.

Padre, esta manhã na Missa, ao ler a história de Esaú, que vendeu os direitos de sua primogenitura, seus olhos se encheram de lágrimas.

Parece-te pouco desprezar o dom de Deus!?

Por que, ao ler o Evangelho, o senhor chorou quando leu estas palavras: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue…”

Chora comigo de ternura!

Padre, por que o senhor chora quase sempre que lê o Evangelho na Missa?

A nós nos parece que não tem importância que um Deus fale às suas criaturas e elas O contradigam e continuamente O ofendam com sua ingratidão e incredulidade.

Sua Missa, Padre, é um sacrifício cruento?

Herege!

Perdão, Padre, quis dizer que na Missa o Sacrifício de Jesus não é cruento, mas a sua participação em toda a Paixão o é. Engano-me?

Não, nisso não te enganas. Creio que tens toda a razão.

Quem lhe limpa o sangue durante a Missa?

Ninguém.

Padre, por que o senhor chora no Ofertório?

Queres saber o segredo? Pois bem: porque é o momento em que a alma se separa das coisas profanas.

Durante sua Missa, Padre, o povo faz um pouco de barulho…

Se estivesses no Calvário, não ouvirias gritos, blasfêmias, ruídos, e ameaças? Havia um alvoroço enorme.

Não o distraem os ruídos?

Em nada.

Padre, por que sofre tanto na Consagração?

Não sejas maldoso… (Não quero que me perguntes isso…)

Padre, diga-me: por que sofre tanto na Consagração?

Porque nesse momento se produz realmente uma nova e admirável destruição e criação.

Padre, por que chora no altar, e que significam as palavras que pronuncia na Elevação? Pergunto por curiosidade, mas também porque quero repeti-las com o senhor.

Os segredos do Rei Supremo não podem revelar-se nem profanar-se. Pergunta-mes por que choro, mas eu não queria derramar essas pobres lagrimazinhas, mas torrentes de lágrimas. Não meditas neste grandioso mistério?

Padre, o senhor sofre, durante a Missa, a amargura do fel?

Sim, muito freqüentemente…

Padre, como pode estar-se de pé no Altar?

Como estava Jesus na Cruz.

No altar, o senhor está pregado na Cruz, como Jesus no Calvário?

E ainda me perguntas?

Como se acha o senhor?

Como Jesus no Calvário.

Padre, os carrascos deitaram a Cruz no chão para pregar os cravos em Jesus?
Evidentemente.

Ao senhor também lhos pregam?

E de que maneira!

Também deitam a Cruz para o senhor?

Sim, mas não devemos ter medo.

Padre, durante a Missa o senhor pronuncia as Sete Palavras que Jesus disse na Cruz?

Sim, indignamente, mas também as pronuncio.

E a quem diz: “Mulher, eis aí teu filho”?

Digo para Ela: “Eis aqui os filhos de Teu Filho”.

O senhor sofre a sede e o abandono de Jesus?

Sim.

Em que momento?

Depois da Consagração.

Até que momento?

Costuma ser até a Comunhão.

O senhor diz que tem vergonha de dizer: “Procurei quem me consolasse e não achei”. Por quê?

Porque nossos sofrimentos de verdadeiros culpados não são nada em comparação com os de Jesus.

Diante de quem sente vergonha?

Diante de Deus e da minha consciência.

Os Anjos do Senhor o reconfortam no Altar em que o senhor se imola?

Pois… não o sinto.

Se não lhe vem o consolo até à alma durante o Santo Sacrifício, e o senhor sofre, como Jesus, o abandono total, nossa presença não serve para nada.

A utilidade é para vós. Por acaso foi inútil a presença da Virgem Dolorosa, de São João e das piedosas mulheres aos pés de Jesus agonizante?

Que é a Sagrada Comunhão?

É toda uma misericórdia interior e exterior, todo um abraço. Pede a Jesus que se deixe sentir sensivelmente.

Quando Jesus vem, visita somente a alma?

O ser inteiro.

Que faz Jesus na Comunhão?

Deleita-se na sua criatura.

Quando se une a Jesus na Santa Comunhão, que quer peçamos a Deus pelo senhor?

Que eu seja outro Jesus, todo Jesus e sempre Jesus.

O senhor sofre também na Comunhão?

É o ponto culminante.

Depois da Comunhão, continuam seus sofrimentos?

Sim, mas não sofrimentos de amor.

A quem se dirigiu o último olhar de Jesus agonizante?

À sua Mãe.

E o senhor para quem olha?

Para meus irmãos de exílio.

O senhor morre na Santa Missa?

Misticamente, na Sagrada Comunhão.

É por excesso de amor ou de dor?

Por ambas as coisas, porém mais por amor.

Se o senhor morre na Comunhão, continua a ficar no Altar? Por quê?

Jesus morto permanecia pendente da Cruz no Calvário.

Padre, o senhor disse que a vítima morre na Comunhão. Colocam o senhor nos braços de Nossa Senhora?

Nos de São Francisco.

Padre, Jesus desprega os braços da Cruz para descansar no Senhor?

Sou eu quem descansa n’Ele!

Quanto ama a Jesus?

Meu desejo é infinito, mas a verdade é que, infelizmente, tenho de dizer nada e me causa pena.

Padre, por que o senhor chora ao pronunciar a última palavra do Evangelho de São João: “E vimos sua glória como do Unigênito Pai, cheio de graça e de verdade”?

Parece-te pouco? Se os Apóstolos, com seus olhos de carne, viram essa glória, como será a que veremos no Filho de Deus, em Jesus, quando se manifestar no céu?

Que união teremos então com Jesus?

A Eucaristia nos dá uma idéia.

A Santíssima Virgem assiste à sua Missa?

Julgas que a Mãe não se interessa por seu Filho?

E os Anjos?

Em multidões.

Padre, quem está mais perto do Altar?

Todo o Paraíso.

O senhor gostaria de celebrar mais de uma Missa por dia?

Se eu pudesse, não quereria descer do Altar.

Disseram-me que traz com o senhor o seu próprio Altar…

Sim, porque se realizam estas palavras do Apóstolo: “Eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus”. “Estou cravado com Cristo na Cruz.” “Castigo o meu corpo, e o reduzo à escravidão…”

Nesse caso, não me engano quando digo que estou vendo Jesus Crucificado!

(Nenhuma resposta)

Padre, o senhor se lembra de mim na Santa Missa?

Durante toda a Missa, desde o princípio até o fim, lembro-me de ti.

A Missa do Padre Pio, em seus primeiros anos, durava mais de duas horas. Sempre foi um êxtase de amor e de dor. Seu rosto estava inteiramente concentrado em Deus e cheio de lágrimas. Um dia, ao confessar-me, perguntei-lhe sobre este grande mistério:

Padre, quero fazer-lhe uma pergunta.

Dize-me, filho.

Padre, queria perguntar-lhe que é a Missa?

Por que me perguntas isto?

Para ouvi-la melhor, Padre.

Filho, posso dizer-te que é a minha Missa.

Pois é isso o que quero saber, Padre.

Meu filho, estamos na Cruz, e a Missa é uma contínua agonia.


Fonte : de Tradition Catolica, nº 141, nov. 98 citando “Assim Falou o Padre Pio” (S. Giovanni Rotondo, Foggia, Itália, 1974) com o Imprimatur de D. Fanton, Bispo Auxiliar de Vicenza.